Poetize-se 2026: resultados
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O Poetize-se chegou à 8ª Edição com o tema "Um poeta na Copa do Mundo", que desafiou a comunidade escolar a pensar poeticamente o maior campeonato do esporte mais popular do planeta e tudo que o permeia. O resultado não decepcionou: recebemos obras de alunos/as de diversos campi e segmentos, desde o Ensino Fundamental até a Licenciatura. Tocantes, divertidas, irônicas e belas, as poesias abordaram temas como desigualdade, sonhos, família, traumas e, claro, futebol.
A Biblioteca da Prôa agradece a todos e todas que participaram e se dispuseram a compartilhar suas obras, tanto os poetas que estão chegando agora quanto aqueles que já fazem parte dessa história e seguem acreditando no nosso projeto ano após ano.
Agradecemos também à banca avaliadora, ao Setor de Comunicação do Campus e do Colégio, ao Núcleo de Arte e Cultura, que mais uma vez esteve conosco, e aos professores parceiros, que contribuíram para a divulgação do projeto e do tema em sala de aula.
A participação de cada poeta, o trabalho de cada parceiro e o incentivo de toda a comunidade escolar foram fundamentais para a realização de mais uma edição. Obrigado por fazerem parte dela!
Os autores das três poesias premiadas foram:
Danton Eric Honorato – Campus Duque de Caxias – "Versos do Apito Final"
Thayna Aparecida Soares China – Campus Centro – "Cosmologia de um Gol"
Lucas Felipe da Nova de Souza – Campus São Cristóvão II – "Enquadramento"
Seguem as obras para apreciação:
Versos do Apito Final
O apito final consagra o silêncio.
A ilusão desaba sobre o asfalto.
A pátria, que antes vibrava em um só corpo, desperta do transe coletivo.
Nas calçadas antes pintadas de ouro, o confete rasgado se mistura à poeira.
A urgência da vida real retoma seu posto, esmagando a euforia efêmera do jogo.
Houve um hiato suspensão do tempo onde a fratura social parecia costurada.
O centro ostensivo e a periferia esquecida brindavam à mesma pátria imaginada.
A busca pela taça era o grande pretexto para anestesiar o cansaço e a rotina.
Mas o espetáculo encerra sua narrativa e a segunda feira cobra o seu preço.
Resta o contraste na avenida deserta: o orgulho estancado no pano da bandeira e os olhos que voltam, subitamente alertas, para a engrenagem fria do cotidiano.
O poeta registra o declínio da festa, a ressaca moral que sucede o grito.
A utopia esportiva dissolve-se no ar; a realidade, implacável, permanece.
Cosmologia de um Gol
Antes do gol, o estádio silencia,
e o tempo parece suspender seu andar;
o jogador respira, a bola o desafia,
e tudo depende do que irá acontecer.
Há dentro do peito um silêncio profundo,
enquanto milhares aguardam também;
por alguns segundos, parece que o mundo
se resume àquele instante e a mais ninguém.
Então vem o chute, a bola se lança,
atravessa o campo, procura seu lugar;
e, enquanto ela voa, renasce a esperança
daqueles que ainda insistem em sonhar.
Quando a bola encontra o fundo da rede,
o silêncio se rompe em um só coração;
o grito se espalha, a emoção não se mede,
e desconhecidos se abraçam na multidão.
São tantos corações pulsando ao mesmo tempo,
tantas vozes formando uma só canção;
o gol transforma, em um breve momento,
milhares de pessoas em uma só nação.
Porque há quem torça apenas com os olhos,
há quem acompanhe o jogo por paixão;
mas há quem carregue, mesmo em seus sonhos,
as cores e o escudo dentro do coração.
Talvez seja por isso que o futebol se pareça
com o universo que existe além do olhar:
cada jogador é uma estrela que começa
a encontrar outras estrelas para poder brilhar.
Cada time, uma constelação desenhada,
cada torcida, uma galáxia em união;
e cada gol, uma explosão inesperada,
que ilumina, por instantes, uma multidão.
As estrelas na camisa contam histórias
de outras batalhas, de quem chegou lá;
são marcas de sonhos transformados em glórias,
memórias de um time que ninguém esquecerá.
E quando o troféu finalmente se levanta,
parece que o céu se aproxima do chão;
nele estão os sonhos de toda uma gente
que fez do futebol uma forma de união.
Talvez esta seja a beleza do jogo:
um simples gol poder tanto significar;
fazer de um instante uma estrela no tempo
e de tantas pessoas um só lugar.
Porque, antes do gol, somos todos silêncio,
esperando o destino escolher sua direção;
mas, quando a bola finalmente encontra a rede,
o universo inteiro cabe em um só coração.
Enquadramento
A transmissão começou.
Não foi o jogo.
Foi a escolha.
Antes da bola,
alguém já havia decidido
o tamanho do mundo.
Chamaram aquilo
de enquadramento.
A esfera partiu
como se conhecesse
o endereço
de todos os olhos.
E conhecia.
Há objetos
que recebem o privilégio
de organizar bilhões
sem jamais pedir licença.
Enquanto ela atravessava
o gramado,
outra travessia
ficava do lado de fora
da tela.
Não por distância.
Por critério.
Descobri, então,
que toda câmera
é uma gramática:
conjuga o que merece verbo,
empurra o restante
para o rodapé das imagens.
O narrador
lapidava acontecimentos.
Polia o instante
até que nenhum excesso
arranhasse a festa.
Mas toda superfície
esconde limalhas.
Passei a recolhê-las.
Linhas.
Remendo.
Fuligem.
Não eram objetos.
Eram biografias
reduzidas ao singular.
Quando a bandeira subiu,
anunciaram:
impedimento.
Achei estranho...
Conhecia pessoas
que carregavam essa palavra
antes mesmo
do primeiro sobrenome.
Nenhuma regra
explicava isso.
Nenhum comentarista
revisava esse lance.
Depois veio o gol.
O estádio
levantou o próprio peso.
A rede abraçou
o que lhe confiaram.
Só então percebi:
há abraços
que duram menos
que o eco
de um narrador.
O juiz olhou o relógio.
O relógio
não olhou ninguém.
Então veio o apito:
Fim.
As arquibancadas
desocuparam o ar.
A bola
voltou a ser matéria.
A grama
voltou a ser grama.
As bandeiras
voltaram a procurar vento.
Mas o enquadramento
permaneceu.
Foi aí
que compreendi
o primeiro verso.
A transmissão
nunca havia começado.
Começou apenas
a versão do mundo
que coube na tela.
O restante,
o que não aceitava
moldura,
replay
ou estatística—
precisou aprender
a sobreviver
em acréscimos.


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