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Poetize-se 2026: resultados

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

O Poetize-se chegou à 8ª Edição com o tema "Um poeta na Copa do Mundo", que desafiou a comunidade escolar a pensar poeticamente o maior campeonato do esporte mais popular do planeta e tudo que o permeia. O resultado não decepcionou: recebemos obras de alunos/as de diversos campi e segmentos, desde o Ensino Fundamental até a Licenciatura. Tocantes, divertidas, irônicas e belas, as poesias abordaram temas como desigualdade, sonhos, família, traumas e, claro, futebol.

A Biblioteca da Prôa agradece a todos e todas que participaram e se dispuseram a compartilhar suas obras, tanto os poetas que estão chegando agora quanto aqueles que já fazem parte dessa história e seguem acreditando no nosso projeto ano após ano.

Agradecemos também à banca avaliadora, ao Setor de Comunicação do Campus e do Colégio, ao Núcleo de Arte e Cultura, que mais uma vez esteve conosco, e aos professores parceiros, que contribuíram para a divulgação do projeto e do tema em sala de aula.

A participação de cada poeta, o trabalho de cada parceiro e o incentivo de toda a comunidade escolar foram fundamentais para a realização de mais uma edição. Obrigado por fazerem parte dela!


Os autores das três poesias premiadas foram:

  1. Danton Eric Honorato – Campus Duque de Caxias – "Versos do Apito Final"

  2. Thayna Aparecida Soares China – Campus Centro – "Cosmologia de um Gol"

  3. Lucas Felipe da Nova de Souza – Campus São Cristóvão II – "Enquadramento"


Seguem as obras para apreciação:


Versos do Apito Final

O apito final consagra o silêncio.

A ilusão desaba sobre o asfalto.

A pátria, que antes vibrava em um só corpo, desperta do transe coletivo.


Nas calçadas antes pintadas de ouro, o confete rasgado se mistura à poeira.

A urgência da vida real retoma seu posto, esmagando a euforia efêmera do jogo.


Houve um hiato suspensão do tempo onde a fratura social parecia costurada.

O centro ostensivo e a periferia esquecida brindavam à mesma pátria imaginada.


A busca pela taça era o grande pretexto para anestesiar o cansaço e a rotina.

Mas o espetáculo encerra sua narrativa e a segunda feira cobra o seu preço.


Resta o contraste na avenida deserta: o orgulho estancado no pano da bandeira e os olhos que voltam, subitamente alertas, para a engrenagem fria do cotidiano.


O poeta registra o declínio da festa, a ressaca moral que sucede o grito.

A utopia esportiva dissolve-se no ar; a realidade, implacável, permanece.


Cosmologia de um Gol

Antes do gol, o estádio silencia,

e o tempo parece suspender seu andar;

o jogador respira, a bola o desafia,

e tudo depende do que irá acontecer.


Há dentro do peito um silêncio profundo,

enquanto milhares aguardam também;

por alguns segundos, parece que o mundo

se resume àquele instante e a mais ninguém.


Então vem o chute, a bola se lança,

atravessa o campo, procura seu lugar;

e, enquanto ela voa, renasce a esperança

daqueles que ainda insistem em sonhar.


Quando a bola encontra o fundo da rede,

o silêncio se rompe em um só coração;

o grito se espalha, a emoção não se mede,

e desconhecidos se abraçam na multidão.


São tantos corações pulsando ao mesmo tempo,

tantas vozes formando uma só canção;

o gol transforma, em um breve momento,

milhares de pessoas em uma só nação.


Porque há quem torça apenas com os olhos,

há quem acompanhe o jogo por paixão;

mas há quem carregue, mesmo em seus sonhos,

as cores e o escudo dentro do coração.


Talvez seja por isso que o futebol se pareça

com o universo que existe além do olhar:

cada jogador é uma estrela que começa

a encontrar outras estrelas para poder brilhar.


Cada time, uma constelação desenhada,

cada torcida, uma galáxia em união;

e cada gol, uma explosão inesperada,

que ilumina, por instantes, uma multidão.


As estrelas na camisa contam histórias

de outras batalhas, de quem chegou lá;

são marcas de sonhos transformados em glórias,

memórias de um time que ninguém esquecerá.


E quando o troféu finalmente se levanta,

parece que o céu se aproxima do chão;

nele estão os sonhos de toda uma gente

que fez do futebol uma forma de união.


Talvez esta seja a beleza do jogo:

um simples gol poder tanto significar;

fazer de um instante uma estrela no tempo

e de tantas pessoas um só lugar.


Porque, antes do gol, somos todos silêncio,

esperando o destino escolher sua direção;

mas, quando a bola finalmente encontra a rede,

o universo inteiro cabe em um só coração.


Enquadramento

A transmissão começou.


Não foi o jogo.


Foi a escolha.


Antes da bola,

alguém já havia decidido

o tamanho do mundo.


Chamaram aquilo

de enquadramento.


A esfera partiu

como se conhecesse

o endereço

de todos os olhos.


E conhecia.


Há objetos

que recebem o privilégio

de organizar bilhões

sem jamais pedir licença.


Enquanto ela atravessava

o gramado,


outra travessia

ficava do lado de fora

da tela.


Não por distância.


Por critério.


Descobri, então,

que toda câmera

é uma gramática:


conjuga o que merece verbo,


empurra o restante

para o rodapé das imagens.


O narrador

lapidava acontecimentos.


Polia o instante

até que nenhum excesso

arranhasse a festa.


Mas toda superfície

esconde limalhas.


Passei a recolhê-las.


Linhas.


Remendo.


Fuligem.


Não eram objetos.


Eram biografias

reduzidas ao singular.


Quando a bandeira subiu,


anunciaram:


impedimento.


Achei estranho...


Conhecia pessoas

que carregavam essa palavra

antes mesmo

do primeiro sobrenome.


Nenhuma regra

explicava isso.


Nenhum comentarista

revisava esse lance.


Depois veio o gol.


O estádio

levantou o próprio peso.


A rede abraçou

o que lhe confiaram.


Só então percebi:


há abraços

que duram menos

que o eco

de um narrador.


O juiz olhou o relógio.


O relógio

não olhou ninguém.


Então veio o apito:


Fim.


As arquibancadas

desocuparam o ar.


A bola

voltou a ser matéria.


A grama

voltou a ser grama.


As bandeiras

voltaram a procurar vento.


Mas o enquadramento

permaneceu.


Foi aí

que compreendi

o primeiro verso.


A transmissão

nunca havia começado.


Começou apenas

a versão do mundo

que coube na tela.


O restante,


o que não aceitava

moldura,

replay

ou estatística—


precisou aprender

a sobreviver

em acréscimos.

 
 
 

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